Uma cesta pequena, dois pilotos, um balão cheio de gás e uma missão que parece simples: voar o mais longe possível do ponto de partida.
Na prática, poucas competições com balões a gás exigem tanto.
A 69ª Copa Aeronáutica Gordon Bennett começa na próxima semana em Gladbeck, na Alemanha, reunindo algumas das equipes mais experientes da modalidade.
A organização oficial trabalha com o período de 28 de agosto a 5 de setembro de 2026, enquanto a janela de decolagem poderá variar de acordo com as condições meteorológicas.
Até o momento, 26 equipes de 12 países aparecem confirmadas no site oficial da competição.
Entre elas estão os atuais campeões, os suíços Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger, vencedores da edição de 2025 depois de permanecerem quase três dias no ar e atravessarem boa parte da Europa.
O que é a Gordon Bennett?
A Copa Aeronáutica Gordon Bennett é uma competição internacional de longa distância em balões a gás, disputada sob as regras da Federação Aeronáutica Internacional, a FAI.
A primeira edição aconteceu em 1906, quando 16 balões partiram do Jardin des Tuileries, em Paris, na França.
A competição foi criada por James Gordon Bennett Jr., empresário e editor do jornal New York Herald.
Mais de um século depois, o princípio continua praticamente o mesmo.
Não existe uma linha de chegada previamente definida.
Vence a equipe que conseguir pousar à maior distância em linha reta do ponto de decolagem, respeitando as regras, os espaços aéreos disponíveis e as restrições estabelecidas para a edição.
Isso significa que, quando os balões partirem de Gladbeck, ninguém saberá exatamente onde a competição terminará.
Dependendo dos ventos, os pilotos podem atravessar vários países antes do pouso.
Não são balões de ar quente
Para quem está mais acostumado aos festivais e campeonatos de balões de ar quente, existe uma diferença fundamental.
A Gordon Bennett é disputada com balões a gás.
Eles não utilizam o sistema tradicional de queimadores utilizado nos balões de ar quente. A sustentação é produzida pelo gás mais leve que o ar presente no envelope.
Durante o voo, os pilotos administram cuidadosamente o peso da aeronave.
Para subir, podem liberar lastro. Para descer, precisam administrar o gás e as condições de voo.
Como os recursos transportados são limitados, cada decisão interfere na autonomia.
É justamente essa capacidade de administrar altitude, meteorologia, espaço aéreo, lastro e estratégia durante dezenas de horas que transforma a Gordon Bennett em uma prova completamente diferente das competições com balões de ar quente.
Voos podem durar vários dias
Na Gordon Bennett, passar uma noite inteira voando não é exceção.
Duas ou até três noites no ar fazem parte da realidade das equipes que brigam pelas primeiras posições.
Em 2025, por exemplo, a prova começou em Metz, na França, e os campeões Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger chegaram à Romênia.
Os suíços percorreram aproximadamente 1.358 quilômetros e permaneceram no ar por 67 horas e 34 minutos, conforme o resultado oficial.
Benedict Munz e Matthias Schlegel, da Alemanha, terminaram em segundo lugar, com cerca de 1.259 quilômetros.
A terceira colocação ficou com os franceses Éric Decellières e Benoit Havret, que chegaram a aproximadamente 1.258 quilômetros.
Foi uma disputa extremamente apertada pelo segundo lugar.
Campeões de 2025 estarão novamente na disputa
Os atuais campeões estarão de volta.
Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger, da Suíça, formam a equipe SUI-1 em Gladbeck.
A dupla já conquistou a Gordon Bennett em diferentes oportunidades e chega novamente como uma das principais referências da competição.
Mas não estará sozinha.
Os vice-campeões de 2025, Benedict Munz e Matthias Schlegel, estão inscritos pela Alemanha.
Também voltam outros pilotos com grande histórico na prova, criando uma edição com forte presença de veteranos.
26 equipes de 12 países
A relação divulgada pela organização da Gordon Bennett 2026 reúne atualmente 26 equipes, cada uma formada por dois pilotos.
Áustria
AUT-1: Gerald Stürzlinger e Helmut Pöttler
AUT-2: Christian Wagner e Stefanie Liller
Bélgica
BEL-1: Geert Peirsmann e Kris Houtmeyers
BEL-2: Stefan Ryckaert e Gauthier Hayt
BEL-3: Anja Götte e Victoria Lebrun
Espanha
ESP-1: Angel Aguirre e Anulfo González
França
FRA-1: Christophe Houver e Guillaume Jouaville
FRA-2: Benoit Havret e Etienne Mercier
FRA-3: Hervé Moine e Justine Legigan
Reino Unido
GBR-1: Deborah Scholes e Thomas Hilditch
GBR-2: Colin Butter e Ann Rich
Alemanha
GER-1: Benjamin Eimers e Nicholas Seyfert-Joiner
GER-2: Benedict Munz e Matthias Schlegel
GER-3: Andreas Zumrode e Axel Hunnekuhl
Itália
ITA-1: Leonid Tiukhtiaev e Paolo Arizzi
Letônia
LAT-1: Inga Van Haver e Jason Fischer
Lituânia
LTU-1: Robertas Komza e Romanas Mikelevicius
Polônia
POL-1: Przemyslaw Moscicki e Jacek Bogdanski
POL-2: Mateusz Rekas e Paweł Soból
POL-3: Vincent Lamort de Gail e Mikołaj Gomółka
Suíça
SUI-1: Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger
SUI-2: Balthasar Wicki e René Erni
SUI-3: Nicolas Tièche e Laurent Sciboz
Estados Unidos
USA-1: John Petrehn e Sam Parks
USA-2: Noah Forden e Brenda Cowlishaw
USA-3: Cheri White e Mark Sullivan
A relação é a publicada pela organização da Gordon Bennett 2026 e pode receber alterações antes da largada.
Gladbeck volta ao centro das competições com balões a gás
A escolha de Gladbeck, na Alemanha, não aconteceu por acaso.
A cidade tem forte ligação com os balões a gás e já recebeu a Gordon Bennett anteriormente.
Em 2016, Gladbeck foi palco da 60ª edição da competição.
Dez anos depois, os grandes balões a gás estarão novamente reunidos na região.
Mas Gladbeck não era a sede originalmente planejada para 2026.
Competição deveria acontecer na Áustria
A 69ª edição havia sido inicialmente atribuída a Filzmoos, na Áustria.
Documentos da Comissão de Balonismo da FAI registravam o evento austríaco no calendário de 2026.
Posteriormente, os organizadores de Filzmoos desistiram de sediar a competição.
A própria FAI informou que, após a retirada austríaca, seu Bureau passou a avaliar alternativas para manter a realização da competição.
Gladbeck acabou confirmada como nova sede, levando a competição para a Alemanha.
A mudança representa uma operação considerável.
Uma Gordon Bennett exige infraestrutura específica para preparação e abastecimento de balões a gás, controle de competição, meteorologia, comunicação, rastreamento e acompanhamento das equipes durante trajetos que podem atravessar boa parte do continente.
Quando será a largada?
Essa é uma das diferenças mais interessantes da Gordon Bennett.
Existe uma data planejada, mas a meteorologia decide quando os balões realmente partem.
26 de agosto: início do credenciamento antecipado
27 de agosto: credenciamento, briefing geral e cerimônia de abertura
28 de agosto, às 4h: abertura da janela de lançamento
28 de agosto, às 20h: horário planejado para a largada
31 de agosto, às 23h59: encerramento da janela disponível para a largada
4 de setembro: recepção das equipes
5 de setembro: cerimônia de encerramento
Todos os horários são locais da Alemanha.
Portanto, 20h de Gladbeck correspondem a 15h no horário de Brasília, considerando a diferença de cinco horas nesta época do ano.
A largada poderá ser adiada caso a situação meteorológica ou operacional torne o voo inadequado.
Por que a meteorologia é tão importante?
Porque os balões não escolhem sua direção como um avião.
A estratégia está em encontrar camadas de vento em diferentes altitudes.
Subindo ou descendo, os pilotos procuram correntes que os levem na direção mais favorável.
Antes e durante a prova, meteorologistas e equipes de apoio analisam modelos atmosféricos, velocidade e direção dos ventos e a evolução dos sistemas meteorológicos sobre a Europa.
A rota ideal não é necessariamente a mais rápida.
Uma equipe pode aceitar avançar menos durante algumas horas se isso permitir entrar posteriormente em uma corrente capaz de transportá-la muito mais longe.
É uma prova de resistência, mas também de estratégia.
Espaço aéreo também decide a prova
Voar mais longe não significa simplesmente seguir qualquer vento disponível.
A Europa possui uma malha aérea complexa, com aeroportos, áreas controladas e espaços que podem ter restrições.
As equipes precisam montar uma rota que seja ao mesmo tempo meteorologicamente eficiente e legalmente possível.
Dependendo da situação, um vento excelente pode levar exatamente para uma região que não pode ser atravessada.
E aí a estratégia muda completamente.
O pouso pode acontecer muito longe da Alemanha
Depois da decolagem, as equipes de apoio deixam Gladbeck e começam outra corrida, desta vez por terra.
Os veículos acompanham os balões durante toda a competição.
Se o balão atravessar fronteiras, a equipe terrestre também precisa atravessá-las.
Quando os pilotos finalmente decidirem pousar, o trabalho continua até que equipe, cesta, envelope e demais equipamentos sejam recuperados.
Em uma prova como a Gordon Bennett, isso pode acontecer centenas ou até mais de mil quilômetros longe da largada.
Quem venceu nos últimos anos?
A lista recente mostra como diferentes países têm conseguido chegar ao topo:
2018: Mateusz Rekas e Jacek Bogdanski, Polônia
2019: Laurent Sciboz e Nicolas Tièche, Suíça
2021: Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger, Suíça
2022: Wilhelm Eimers e Benjamin Eimers, Alemanha
2023: Éric Decellières e Benoit Havret, França
2024: Christian Wagner e Stefanie Liller, Áustria
2025: Kurt Frieden e Pascal Witprächtiger, Suíça
Vários desses nomes estarão novamente em Gladbeck em 2026.
Dá para acompanhar pela internet?
Sim.
Um dos grandes atrativos da Gordon Bennett para quem acompanha de casa é o rastreamento dos balões.
Durante a competição, o deslocamento das equipes pode ser acompanhado praticamente em tempo real, permitindo observar as diferentes escolhas de rota, altitudes e estratégias.
Isso faz com que a corrida continue interessante mesmo durante a madrugada brasileira, quando os balões podem estar atravessando diferentes países da Europa.
A própria Comissão de Balonismo da FAI informou em 2026 que um novo sistema de rastreamento e pontuação para a Gordon Bennett estava em desenvolvimento.
O Blog do Balonismo acompanhará a edição de 2026, com informações sobre a largada, evolução das equipes, rotas e resultado final.
Uma semana para a Gordon Bennett 2026
Gladbeck começa agora a receber equipes que se preparam para uma competição em que não basta voar rápido.
É preciso saber quando subir, quando descer, quando economizar lastro, quando mudar a estratégia e, principalmente, quando continuar voando.
Em uma corrida sem linha de chegada definida, o destino de cada equipe será decidido pelo vento.
E somente depois que o último balão pousar será possível saber até onde a Gordon Bennett 2026 conseguiu chegar.

