Memórias do Balonismo: Tudo por um balão

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Foto: Kiki Naccarato
Matéria publicada no Inema em 01/11/2001.
Eduardo Strategie fez mil aventuras para conseguir chegar perto de alguns balões que estavam participando de um Campeonato na sua cidade. Leia seu relato.
Tudo começou em 92. Eu vivia no interior de SP (Piracicaba) e não tinha a menor idéia do que era balonismo. Trabalhava no depto de engenharia de uma empresa de pesquisa (Copersucar). Balão mesmo nunca tinha visto.
Fiquei sabendo através da imprensa que haveria um campeonato brasileiro em Piracicaba, mas até aí tudo bem. Vi alguns balões voando pela cidade e achei aquilo muito legal. No primeiro sábado que iniciava o campeonato eu convidei una amigos para um churrasquinho na cobertura do prédio em que eu morava. Não pensem vocês que era “a cobertura”, estava mais para telhado do prédio.
Foi aí que passou sobre nós a uns três metros das nossas cabeças um balão com dois tripulantes. Foi a maior algazarra. Oferecemos cerveja para o piloto, gritamos, acenamos e aí eu gritei: “Como é que eu faço pra voar nisto?” E o cara respondeu: “Passa amanhã no Parque (que era o local do campeonato) que eu te levo!”
Beleza! Ganhei o dia, fiquei na maior animação, mal pude esperar o Domingo chegar. No dia seguinte, acordei cedo, peguei minha moto e desci para o Parque da Rua do Porto, que é um lugar muito legal aonde as pessoas vai para o “fitness” com uma área gramada ideal para os balões.
Quando eu chego todo animadinho, ia entrando quando um segurança me barrou e disse:
– Ta indo aonde rapaz?
– Vou voar, fui convidado.
– Ah sei. Então cadê o convite? 
– Não tenho, o cara me convidou enquanto voava.
– Então espera ele sair voando que ele te pega fora do parque pois aqui dentro só com a credencial.
Foi uma das piores experiências com o pessoal da “segurança”. Quase apanhei tentando entrar e quanto mais eu tentava convencê-los (já eram uns quatro) pior ficava. Fiquei indignado. Fui vendo as equipes passarem por mim nas pick ups e resolvi que entraria naquele campeonato a qualquer custo.
Vi um fotógrafo de um jornal que estava usando uma credencial de imprensa. Ali estava a minha chance. Chamei o cara no alambrado e inventei uma história, perguntando sobre a cobertura do evento e coisas assim, tudo isso para ver a tal da credencial. “Bati o olho” dei uma analisada no desenho, proporções e de repente subi na moto e deixei o cara falando sozinho. Chegando em casa recortei uma “cartolina” vermelha, desenhei uns balões, e escrevi IMPRENSA na minha credencial. Para finalizar, plastifiquei-a e voltei para o parque.
Entrei sem problemas com minha maquininha fotográfica tipo “tira queima” e fui em busca do meu vôo. Só para lembrar: a credencial ficou horrorosa, na da a ver com a original.
Eram tantas equipes e a grande maioria super organizadas, todos de uniforme, confesso que tinham alguns que pareciam astronautas devido à organização e a maneira que tratavam os simples mortais que ali estavam em volta. Confesso que a primeira impressão não foi das melhores. Cada equipe era composta de no mínimo quatro pessoas e num certo momento vi dois caras “suando” para tirar o equipamento da pick up foi aí que cheguei até eles e perguntei:
– Querem uma mãozinha? 
Os dois se olharam e um deles olhou pro céu e falou: – Obrigado Senhor !
Me explicaram como manusear o equipamento, o que fazer, o que não fazer etc…. Me perguntaram se eu sabia dirigir e falei que sim. A partir daí tornei-me o responsável pelo resgate do balão.
Foi muito legal, estava me sentindo um piloto de rallye. E como eu conhecia bem a região era quase sempre o primeiro a chegar no balão. Isto obviamente colaborou bastante para o meu entrosamento com a equipe e também com alguns dos “astronautas” do campeonato.
Durante aquela semana pedi licença para o chefe e só fiquei fazendo resgate do balão até que chegou o grande dia: eu iria voar! Foi sensacional, aquela paz, ver o mundo de um outro ângulo, sem barulho de motor, só ao sabor do vento. Adorei e prometi pra mim mesmo que algum dia seria piloto de balão.
Após o final do campeonato o Walterson (o piloto e responsável direto por eu estar escrevendo isto hoje) pediu para deixar o equipamento na garagem do meu prédio, pois ele estava dando instruções para o Axel (que era o 2º integrante da equipe). Eles achavam que Piracicaba seria ideal para voar, também porque eu estaria lá para auxiliá-los. Falei que tudo bem desde que no final da instruções do Axel eu tivesse as minhas primeiras aulas.
E assim foi. Eles vinham nos finais de semana para voar e eu além de fazer o resgate às vezes arranjava um substituto para que eu também voasse como passageiro. Nestes vôos eu prestava a maior atenção e algumas vezes eles me deixavam “tirar uma casquinha” pilotando o balão.
Num dos finais de semana o Walterson não poderia dar a instrução ao Axel e me ligou avisando. Confesso que me decepcionei um pouco, mas bem pouquinho. Chamei um amigo que o pai tinha uma pick up Fiorino e disse que precisava de uma camionete para o resgate e se ele gostaria de emprestá-la e participar da equipe. Ele aceitou na hora.
Sábado de manhã, carregamos o balão na pick up e fomos para o parque da Rua do Porto. Meu amigo me perguntou sobre o piloto e eu disse que já estava a caminho, mas que iríamos montar o balão para adiantar o serviço. Descarregamos o balão, amarramos no carro, e colocamos o balão em pé com a ajuda de umas pessoas que se aproximaram para ver o que acontecia.
Daí falei para o meu amigo:
– Você vai fazer o resgate, então fica sempre com o carro embaixo do balão, e se possível esteja por perto na hora do pouso porque não tenho rádio para comunicação.
E ele perguntou meio nervoso:
– Cadê o piloto ?
– Tá olhando pra ele.
– Você está louco! Vai se matar! Derruba essa porcaria e vamos embora!
Enquanto ele ficava amarelo eu desamarrei a corda e decolei para meu primeiro vôo solo. A adrenalina pegou e o coração disparou. Foi então que eu pensei: seu idiota, decolou sozinho e agora vai ter que descer. Vê se presta atenção e não se mata.
E assim foi, voei por umas 2 hora subindo e descendo sobre os canaviais da região, e fui aos poucos “pegando a mão” do balão. Pousei num campo de futebol em Águas de São Pedro (vizinha à Piracicaba) e em um minuto meu amigo chegou com a pick up e desceu correndo e gritando: Você está vivo!
Nos abraçamos como se comemorássemos um gol e pude ver a expressão de alívio dele e acho que a minha também. E foi assim. Recolhemos o balão e tomamos o maior porre pra comemorar. É claro que não falei nada para o Walterson e nem pra ninguém, continuei depois fazendo meus vôos de instrução até me formar piloto.
Esta experiência foi inesquecível, mas não posso dizer que foi correta, poderia ter acontecido algum acidente. Olhando para trás, posso ver o quanto minha vida mudou por causa do balão. E que rumos ela poderia ter tomado se eu não tivesse “elaborado” aquela credencial.
A vida é louca e uma pequena atitude (correta ou nem tanto) pode mudar sua vida para sempre. Não esperem que suas vidas mudem com grandes ações ou decisões, muitas vezes seu destino pode estar aí do seu lado, talvez dando um “bom dia” ao seu vizinho ou até dando uma voltinha de bicicleta, quem sabe?
Desejo que cada um de vocês encontre seu destino como eu encontrei o meu, e corram atrás de seus sonhos, errando às vezes mas querendo acertar sempre. Sorte!

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